quarta-feira, 4 de junho de 2008

Capítulo I

O que você vai ser quando morrer?


“O céu pesado, nebuloso, da última sexta-feira, parecia prenunciar a tragédia que estaria para desabar sobre a cidade no início da noite” Maria Aurélia G. Silva - 25/5/94


Sexta-feira. Maio de 1994. Céu nublado, temperatura amena. Odajyl Pessoa abriu os olhos, acordou e se vestiu. Não sabia que aquele era o último dia de vida dele e de alguns amigos que entraram no mesmo ônibus. Jyl, como era conhecido em Rio Claro, era um rapaz de 23 anos: moreno, forte e carismático. Trabalhador, paquerador, sonhador.

Estava no último ano da faculdade de Matemática da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Tinha três irmãs e um irmão, pai, mãe, sobrinhos e amigos.
Uma reunião na Condor Engenharia, onde Jyl trabalhava, aconteceu na manhã do dia 20 de maio de 1994. Jyl participou do encontro, mas não trabalhou no restante do dia. Fez coisas incomuns.

Visitou os sobrinhos e brincou. Foi ver o pai no trabalho, falou de seu Passat como se estivesse entregando o carro. Documentação, chaves e mecânica: tudo em ordem. Passou na casa do sócio, Fábio, para conversar sobre o futuro.

Jyl e Fábio planejavam abrir um negócio no ramo de informática. Jyl estava ansioso com a mudança profissional e desabafou com o sócio: “Hoje é o dia mais feliz da minha vida! Essa vida é boa e curta. A gente tem que aproveitar os bons momentos. Uns abrem a porta da tristeza e outros abrem a porta da alegria. Eu, por exemplo, encontrei hoje a chave da porta da felicidade”. Naquele momento, ninguém entendeu.

Depois de 10 anos a família Pessoa relembra, durante a entrevista, a forma com que os avisos sobre a morte de Jyl chegavam. Enquanto isso, em Campinas, a experiente enfermeira Carla Fiori trabalha e sabe quando um doente terminal está preste a morrer. Não de forma sobrenatural, mas pelo cheiro rançoso e pela aparência.

Jyl não percebeu claramente a própria morte. Ele faleceu por causa de um acidente, um pouco depois das sete da noite, a caminho da faculdade. Ao completar 10 anos da ausência de Jyl, a mãe (Constância) e uma das três irmãs (Simone) contam como o dia dele transcorreu, com acontecimentos e palavras que parecem confirmar que algo o atingiria.

Corredores, aventais, agulhas, sangue, macas, feridas, curas e óbitos. Com diferentes perspectivas, mas com a mesma realidade de lidar com o sofrimento alheio, os profissionais da saúde precisam conviver com a morte. São doenças e doentes terminais, acidentados, enfartados e algumas pessoas que conseguem sair de uma complicação para viver por mais algum tempo.

Com 22 anos de experiência profissional na área da saúde, Carla Fiori demorou a entender alguns sentimentos em relação aos dramas que tinha que ver e conviver. Hoje ela é enfermeira do Centro de Atendimento Integral à Mulher da Unicamp (Caism).

O primeiro contato de Carla com a aparência da morte foi na faculdade, onde tanques com pedaços de corpos, chamados de peças, estavam à disposição para o estudo prático do corpo humano. O cheiro de formol entrou nos olhos, no nariz e na garganta: “O primeiro contato foi com aquela carne rígida e gelada”. Ela respirou fundo e pensou: “Eu tenho que pôr a mão, eu tenho que ir pegando”.

Passado o impulso de soltar a carne escura, Carla terminou o curso na Puc-Campinas, obteve o diploma e se especializou. Enfrentou situações que vão além do cheiro de formol. Ela aponta que a maioria dos cursos na área da saúde não prepara emocionalmente os alunos para enfrentarem a morte, mas Carla parece saber lidar com tais situações e explica que a calma que sente diante de doentes terminais é um exemplo que foi ensinado por sua mãe, que era espírita e que soube se despedir do mundo e da família de forma tranqüila.

Quando Carla estudou Enfermagem, a única disciplina que poderia dar suporte emocional para os alunos era a Psiquiatria, pois a professora de aula prática levava os estudantes para o manicômio. Com a experiência, Carla concluiu que é mais difícil lidar com a loucura do outro do que com cadáveres em laboratórios de anatomia. A possibilidade de se identificar com um corpo sem vida é remota, mas ao perceber as atitudes exacerbadas de uma pessoa considerada louca, Carla sentiu medo.

Observar a insanidade mental da pessoa que passa o dia inteiro “catando papel” no manicômio pode trazer o receio de que um dia isso possa acontecer com qualquer um que tenha algo interno a ser resolvido, como a mania de limpeza, o excesso de organização ou qualquer outro hábito que, ao ser intensificado, se torna uma doença digna de tratamento psiquiátrico como, por exemplo, o medo extremo que pode se transformar em Síndrome do Pânico.

Quem opta pela enfermagem conhece que a essência da profissão é cuidar de pessoas que estão doentes. Carla escolheu ser enfermeira, pois não quis cursar Medicina por causa do estereótipo do médico endeusado, onipotente e de difícil acesso. O desejo de Carla era exercer um perfil diferente do profissional de saúde prepotente e distante. Hoje, ela admite que poderia ser uma médica diferente de muitos que mal perguntam o que o paciente está sentindo.

No período em que ainda era estudante, ela não pensou na morte como algo objetivo, mas sabia que o fato estava implícito. Sem sentimentos mórbidos em relação ao assunto, quando Carla precisa parar em um acidente, o que a move não é a curiosidade, mas a vontade de ajudar.

Se pensar na morte alheia é algo tranqüilo para Carla, a idéia do próprio fim apareceu com o passar do tempo: “Quando alguém tem 20 ou 30 anos, existe a sensação de que é eterno, por isso, a ansiedade de um jovem não é transferida para o óbito, mas para as patologias da criança, do adulto, do velho e do doente mental”.

Além de ter estudado Enfermagem na Puc, Carla Fiori é formada pela Escola Superior de Enfermagem D. Ana Guedes, na cidade de Porto, em Portugal. Grande parte da experiência de Carla é voltada para a saúde do idoso e a vocação pode ser explicada por um fato ocorrido na época do estágio feito no Hospital Celso Pierro, no começo da década de 80. Foi o primeiro contato com a morte de uma criança e, segundo ela, “uma experiência péssima”.

O hospital estava em reforma e Carla precisou fazer a transferência de um bebê de oito meses com uma séria cardiopatia. Ele tinha alergia a tudo, sobrevivia com ajuda de aparelhos, não comia a comida do hospital e a mãe tinha que lavar o lençol do bebê na própria casa. No dia em que o pintor estava chegando perto do quarto da criança, deram uma ordem para que Carla a transferisse. E Carla, “como estudante idiota, boba e tonta, mão de obra barata”, concordou. Preparou o local que ia receber o bebê, pegou o oxigênio, o carrinho de emergência e deixou pronto tudo o que era preciso. Desconectou a criança dos aparelhos para atravessar um corredor de cinco metros e, quando chegou no outro quarto com o berço, o bebê “parou”.

Mesmo com o coração parado, existe a tentativa de reanimação e a esperança de que não ocorra um óbito, então “foi aquela correria”. A equipe ficou cerca de duas horas tentando reanimar a criança que voltava e parava, voltava e parava. Enquanto a equipe de enfermeiros e médicos tentava reanimar o coração do bebê, a mãe ficou do lado de fora esperando.

Depois que a equipe desistiu da reanimação, já que o bebê não voltava, a mãe pegou Carla “pelo colarinho” e a chamou de assassina. Emocionalmente, enfermeira não ficou bem depois do óbito do bebê, mas conseguiu entender que a responsabilidade não era dela.

Racionalmente, a criança não tinha saúde para continuar viva e a transferência não poderia ser feita por uma estudante. Não porque um profissional faria o trabalho de forma diferente, mas pela responsabilidade, para poder responder pela morte de uma pessoa.

Depois do trauma, Carla não sofreu punição ou demissão dentro do hospital porque, de qualquer forma, “a criança não sobreviveria por muito mais tempo”.

Carla faz análise e sabe que a terapia é um cuidado que os profissionais da saúde esquecem de procurar. Como enfermeira, ela é um depósito dos problemas dos outros: “As pessoas vomitam os problemas em cima da gente de uma forma muito fácil”. Por ficar tanto tempo ao lado dos pacientes, o profissional de enfermagem é treinado para cuidar do doente. Fato que nem sempre acontece, como nos casos de preconceito. Há alguns anos, um dos grandes tabus era ser mãe solteira.

Ter um filho sem estar com o marido ao lado podia significar ser mal tratada dentro dos hospitais. Carla não concorda com a discriminação, mas admite que isso é comum, “infelizmente”. O preconceito atinge questões como raça, credo e sexo. “As prostitutas são as maiores vítimas da negligência de quem não respeita as diferenças”. O mais comum é ouvir profissionais dizendo: “Ah, merece sofrer mesmo, é prostituta!”.

Há também os presos e sentenciados: “Se um preso ou prostituta está para morrer, os profissionais os deixam sozinhos, ninguém fica perto”.

Por causa da religião, que não permite a transfusão de sangue, a discriminação atinge as Testemunhas de Jeová. Se uma mãe não permite a transfusão de sangue no filho, ela é “crucificada” pela equipe. Alguns tentam liminar judicial para poder obrigar a criança a receber sangue. Carla é categórica: “Eu sou radicalmente contra. Isso é discriminação, pois é o que a mãe quer, é o que ela acredita. Na crença dela, ela está protegendo e sendo a melhor mãe do mundo como eu acho que estou sendo a melhor mãe do mundo na hora que eu autorizo uma transfusão para o meu filho. Quem sou eu para julgar?”. Antes de qualquer situação, Carla enxerga no paciente um ser humano que precisa de cuidados e respeito.

Não é possível aliviar o sofrimento de ninguém, mas é possível ser solidário. Para diminuir o padecimento de um doente, padecer junto não é o melhor caminho, basta compreender: “não apenas com palavras de conforto ou tapinhas nas costas ‘ah, fica tranqüilo, tudo vai dar certo’, isso é uma puta sacanagem! É uma sacanagem que não tem tamanho”. Carla compreende a dor, escuta e deixa a pessoa falar. O mais apropriado é ficar disponível e dizer: “pode contar comigo”.

A piedade é um sentimento requisitado por pessoas doentes e seus familiares, mas ter dó do paciente é um comportamento nocivo. A primeira vez que Carla percebeu este tipo de atitude foi quando, com pouco mais de dois anos de experiência como enfermeira, cuidava de uma senhora que teve um Acidente Vascular Cerebral (derrame).

A senhora, que tinha 70 e poucos anos, estava hospedada na casa da filha: “uma mulher casada, com filhos e marido”. Um dia, a filha da idosa inválida acusou Carla de ser uma profissional fria. Carla é taxativa em sua afirmação: “Eu não sei sentir dó de uma pessoa. A filha da senhora inválida não sabia lidar com aquela situação e queria que eu passasse a mão na cabeça dela e dissesse ‘ah, coitada, olha só, sua mãe estragou sua vida’. Eu não disse nada”.

Carla trata os pacientes em coma da mesma forma que cuida de alguém que está consciente. Cumprimenta, fala da aparência, conversa e pede licença para pegar no corpo: “Tem que ter o respeito à privacidade, ao corpo da pessoa que a gente está cuidando, esteja ela consciente ou não. Eu digo sempre ao paciente o que vou fazer, tipo ‘agora vou dobrar sua perna, vou esticar seu braço’...”. A atitude é explicada por ela com base em estudos que comprovam que o uso da linguagem não está separado da técnica: “Como eu acredito que o inconsciente está gravando tudo, desde a fecundação até a morte, então eu acho que está valendo. Não importa se está em coma ou não. A área da neurologia tem muito a descobrir. Eu não vou correr o risco de desrespeitar uma pessoa, mesmo ela estando em coma”.

O Brasil é um país de muitas cores e faces, por isso, nenhuma crença pode declinar a aceitação do sincretismo religioso. Para Carla Fiori, brasileira, não é diferente. De educação cristã e orientação espírita, ela cai em contradição e não acredita que somos a imagem e semelhança de Deus: “A tentativa de tornar Deus um humanóide seria fruto da falta de imaginação do ser humano”.

Para Carla, Deus é a energia criadora do universo que está ligada com as leis da física e da química, não uma entidade com consciência que manipula os acontecimentos. Às vezes, ela acredita na vida após a morte, às vezes, não: “É muito confuso, acho que depois nos tornamos energia”.

O pai dela morreu há dois anos e a mãe há seis. Mesmo assim, quando sente saudades da presença materna, conversa e pede ajuda. Desta maneira, ela faz exatamente aquilo que acha que não existe. Se a mãe dela morreu, o corpo está decomposto e a energia presente no universo: “É uma contradição absurda, mas eu estou bem com a minha contradição”.

Carla faz de conta que conversa com os pais para aliviar a saudade pois, como ela insiste em dizer: “Saudade dói, saudade dói”. Lidar com a dor de forma madura, não lamentar, entender a morte como um presente e não como uma punição é o que ela faz: “O problema da morte é para quem fica, não para quem morre, então, quando sou eu quem fica, como no caso de pessoas que eu tenho envolvimento emocional, eu sinto saudades”.

Durante a entrevista, Carla salientou a diferença entre a percepção que seus dois filhos têm da morte. Thiago tem 17 anos de idade e convive com o sofrimento alheio de forma tranqüila. Aos oito, no velório do avô paterno, Thiago quis tocar o corpo dele com todas as mãos e estranhou a ausência de sapatos no ente querido. Atualmente ele diz que, quando tiver que ser enterrado, quer estar vestido de bermuda e sem sapatos, como aconteceu com seu avô, que pôde contar com a presença do neto ao lado da cama nos últimos dias de vida.

A filha mais velha da enfermeira Carla, Ana Paula, tem conhecimento sobre os primeiros socorros e sobre os procedimentos que devem ser feitos em caso de acidentes, mas tem pavor do que a mãe precisa ver no dia-a-dia: “Não gosto de sangue, o sangue significa vida, então, se você está perdendo sangue, você está perdendo sua vida. Eu não sou Deus, então eu fico apavorada. Eu queria pegar uma pá, colocar o sangue para dentro e fechar”.

Ana Paula quer se formar em estatística. Gosta de números, pesquisas e porcentagens. Evita ficar perto de pessoas doentes e as procura quando estão melhores: “Eu vejo a pessoa acabada e não gosto de gente que reclama, não tenho paciência”. Ana Paula tem um jeito jovem e alegre que contagia, fala rápido e usa muitas gírias. Estuda, tem amigos e não gosta de agulhas. Beber antes de dirigir? Nem pensar! A filha de Carla sabe que é preciso tomar cuidado para não morrer: “A gente cresce sabendo que o cachorrinho morre, o passarinho morre, seu avô morre, seus pais vão morrer. Você vai sendo preparada para isso e um dia você vai morrer, seus filhos e netos vão te enterrar. Não paro e penso ‘vou morrer’, se eu morrer eu morri, e daí? Vou viver o hoje e também pensar no meu futuro”.

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