quarta-feira, 4 de junho de 2008

Capítulo VII

Os funerais de Campinas


"Silenciou de repente. Gemeu como um cão. E sobre o asfalto quente seu sangue escorreu suavemente todo pelo chão" Um ponto oito - John Ulhoa


Das 19 vítimas do acidente do dia 20 de maio de 1994, 70% eram clientes da Funerária João de Campos, em Rio Claro. O proprietário, Júlio César Reis, estava em São Paulo no dia da tragédia. Alguns moradores ajudaram os funcionários a preparar o funeral: “É uma coisa tão estranha. Quando alguém faz o plano não imagina que vai enterrar o filho depois dele tentar chegar na faculdade. Eu tenho funcionários competentes para administrar isso e um monte de gente da cidade acabou ajudando. Você não imagina a zona que deu!”.

Campinas difere de Rio Claro no que diz respeito à concorrência. Na cidade de um milhão de habitantes, a responsabilidade de recolher e arrumar os corpos para os funerais é do departamento de Serviços Técnicos Gerais (Setec).

Quando Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, foi assassinado em 2001, o Engenheiro Supervisor dos Cemitérios Municipais de Campinas, José Carlos Raineri, estava em casa. Ele ouviu a notícia na televisão e pensou: “Lá vem mão de obra”. A pressão causada aos responsáveis pela parte funerária de uma cidade é imensa quando se trata de tragédias ou da morte de pessoas importantes. Para um sepultamento importante como o de Toninho, foi preciso preparar o cemitério: “Ninguém dormiu naquela noite”.

Enquanto Raineri, conhecido como Paulista, preparava o terreno do Cemitério da Saudade para receber milhares de pessoas, Toninho era resgatado pelo Corpo de Bombeiros. O corpo do prefeito deu entrada no necrotério por volta da meia-noite. A perícia terminou o trabalho às duas e meia da madrugada e entregou o corpo de Toninho aos cuidados do Gerente de Divisão Funerária, Erivelto Luis Chacon.

Desde que ouviu um boato sobre a morte de Toninho, Chacon “ficou de prontidão”. Quando recebeu o corpo, avisou a todos que precisaria de um prazo para preparar o funeral: “Eu tinha prometido o corpo no velório às oito e meia da manhã e, às seis horas, a cidade inteira estava cobrando”. Chacon já tinha experiência com este tipo de pressão. Em 29 de fevereiro de 1996, ele foi responsável pelo corpo do então prefeito de Campinas, José Roberto Magalhães Teixeira.

Quando cuidou do funeral de Toninho, Chacon manteve o ritmo de trabalho para atender o pedido da população: “Eu sou uma pessoa muito técnica, se eu preciso de um prazo de oito horas para manipular um corpo, não adianta cobrar antes”.

Um comandante da polícia militar, o qual Paulista não lembra o nome, foi montar o esquema para receber as pessoas no cemitério. O comandante disse que era preciso deixar aberto apenas o portão principal para direcionar a multidão. Paulista não concordou, pois acreditava que era preciso abrir os outros dois portões existentes: “Se você fizer isso, nós vamos morrer aqui dentro. Não deu outra, dito e feito”.
Na manhã do sepultamento de Toninho, o movimento só não foi maior por causa do incidente em Nova Iorque, quando o atentado terrorista nos Estados Unidos desviou a atenção da mídia para a queda das torres gêmeas do World Trade Center. Mesmo assim, milhares de pessoas entupiram a avenida onde estava o caminhão que transportava o corpo de Toninho.

Houve congestionamento. As pessoas pulavam o muro do cemitério e as coroas de flores tiveram que entrar “pelos fundos”. Paulista assistiu e coordenou tudo com ansiedade: “O comandante tinha que facilitar o acesso e não direcionar. Fiquei com medo que aquele muro caísse. Foi terrível. Quando acabou, a sensação era de dever cumprido”.

A Setec é autarquia da prefeitura do município e, desde 1975, é responsável por todos os funerais de Campinas, Sousas e Joaquim Egídio; desde o atendimento às famílias, a escolha do tipo de funeral, o velório e local de sepultamento.

Setenta e cinco funcionários cuidam deste mercado que não enfrenta concorrência e providencia cerca de 500 velórios mensais. Na cidade existem cinco empresas particulares, chamadas de “Organizações de Luto”, que vendem planos funerários e cuidam da parte burocrática para o cliente associado. Mas o produto final, a urna e a arrumação do corpo, que vai ser enterrado em algum dos nove cemitérios da região, é direito e responsabilidade exclusiva da Setec.

Em Campinas existem três cemitérios públicos e seis particulares. A fiscalização de todos eles é função do poder público. Em Campinas não existe um crematório e, para usar este serviço, é preciso ir para São Paulo. O transporte do corpo para a capital paulista custa R$ 180,00 e para cremar são investidos mais R$ 320,00.

Chacon sabe que a cidade merece ter um crematório próprio: “Quem afasta a idéia do crematório é a igreja católica que não era a favor da cremação porque a bíblia fala ‘do pó ao pó voltará’. Os mais antigos não aceitam a cremação. Hoje, essa idéia está melhorando até na questão de doação de órgãos”.

O maior cemitério de Campinas é o da Saudade, onde os senhores do café ostentavam riqueza pela construção soberba das sepulturas, grande parte abandonada pelo descaso ou falência das famílias. Fundado pelo município em 1880, o terreno se localizava a 17 quilômetros do centro da cidade. Ocupa um espaço de sete alqueires com 32 mil sepulturas e com o registro de 480 mil óbitos. É o cemitério mais tradicional da cidade. Nele acontece a primeira cena do filme inspirado no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Dois funcionários da Setec participaram da filmagem carregando a urna do personagem principal, interpretado por Reginaldo Farias.

O local possui túmulos, mausoléus e capelas onde estão sepultadas personalidades como Francisco Glicério, Barão de Atibaia e Bento Quirino. Há mais de 120 anos o Cemitério da Saudade é considerado um museu a céu aberto por abrigar obras de arte esculpidas em mármore.

Por conta das características tradicionais e artísticas, o cemitério é alvo de interesse para a publicidade. Uma agência contratou modelos para serem filmadas e fotografadas entre os túmulos. Antes do ensaio fotográfico, elas se reuniram para conversar. Quem trabalhava nas bancas de flores ficou assustado e pensou que a cena pudesse anteceder a preparação de um ritual macabro, já que as modelos vestiam roupas pretas. A imprensa foi chamada e Chacon precisou explicar o que estava acontecendo. O fato foi publicado em uma nota no jornal.

Com uma área de sete alqueires abarrotada de obras de arte, à noite o Cemitério da Saudade é vigiado por apenas três seguranças. Eles circulam sem arma e sem carro. Paulista explica que o ideal seria terceirizar a segurança ou trabalhar em conjunto com a Guarda Municipal: “É o nosso grande desafio. A Guarda Municipal existe para tomar conta do patrimônio público, e o que acontece? Roubo de vasos e tudo mais”.

Alvo do vandalismo e dos ladrões, o cemitério é destruído aos poucos. Os seguranças são concursados e trabalham como “apontadores de fatos”, sem armamento e sem poder de prisão. O carro para fazer parte na segurança do cemitério foi tirado de circulação porque nem todos possuem habilitação: “Com o carro é pior do que a pé, pois não é em todas as ruas que o veículo tem acesso. Se alguma pessoa vê o carro, ela se esconde. Principalmente à noite”.

Afinal, são 32 mil sepulturas, uma ao lado da outra, distribuídas por todos os lados. Seria preciso uma bússola ou bom conhecimento do terreno para não se perder. O que possibilita enxergar a direção é o horizonte da cidade repleto de prédios.

O Cemitério Parque Nossa Senhora da Conceição, conhecido como Amarais, foi fundado em julho de 1969 e atualmente possui 22 mil sepulturas. Com 150 mil metros quadrados, o Cemitério dos Amarais é todo gramado e não possui túmulos ou capelas, mas apenas carneiros (gavetas) abaixo do solo. A estrutura deixa os falecidos em igualdade, pois não há apologia aos bens materiais adquiridos em vida. É ao lado do Cemitério dos Amarais que se localiza o Necrotério Municipal, com salas de necropsia e câmara fria, utilizadas pelo IML e pelo Serviço de Verificação de Óbito de Campinas.

O terceiro Cemitério Municipal está localizado em Sousas. Ocupa uma área de quatorze mil metros quadrados e é considerado “um dos mais bonitos da região”.

Um funeral custa dinheiro. Em Campinas, a quantia varia de R$ 300,00 a 12 mil, preço pago pelo velório do prefeito Toninho.

No mostruário estão expostos 25 tipos de urnas, desde a mais simples até a mais cara, incluindo as infantis. Em depósito, existem 149 modelos diferentes. Quatro fábricas são fornecedoras da Setec e o funeral é diferenciado pelo tipo de urna: detalhada, lisa, envernizada, tipo de alça, com ou sem visor e forramento interno.

Para a classe mais pobre, existe a quadra geral no Cemitério dos Amarais onde os corpos são enterrados na terra e permanecem no local por três anos até serem retirados. É cobrada uma taxa de R$ 9,00 para o sepultamento, mas existem famílias pobres que, depois de enterrar um ente, conseguem juntar dinheiro para colocar o corpo em um local fixo.

Se uma pessoa diz que é carente e pede o funeral gratuito, a Setec precisa atender o pedido mesmo que a pessoa aparente o contrário vestindo roupas caras ou dirigindo um carro novo.

A maioria dos óbitos de recém nascidos é destinada ao funeral gratuito. Quem optava pelo procedimento gratuito não possuía o direito de velar o corpo. A regra foi modificada, mas se o velório estiver lotado o espaço é prioridade de quem pagou.

Algumas pessoas escolhem não gastar com funerais nem com espaços em cemitérios. Outros, solicitam um funeral caro, mas sepultam na quadra geral. Aqueles que pagam pelo funeral mais caro costumam pedir o que a Setec tem de melhor e não fazem questão de escolher a urna ou a coroa de flores.

Chacon trabalha na Setec há quase 20 anos. Na sala dele há uma mesa, cadeiras confortáveis, computador e um grande quadro pintado à mão. Muitos girassóis. Ele não foge à regra quase absoluta de trabalhar no ramo por conhecer um parente envolvido com o mercado que cuida de corpos sem vida.

O irmão de Chacon trabalhava em uma funerária de Campinas na década de 70: “O meu irmão foi gerente da funerária Davi, que na época era concessionária da Santa Casa. Quando criaram a Setec, em 1975, ele veio administrar o serviço. Em 1984 saí do quartel, então ele me convidou para vir e estou aqui até hoje. Eu sou um dos últimos funcionários que entrou na Setec sem concurso”.

Chacon começou como agente funerário e confessa que trabalhar para o setor parecia diferente. Ele é exigente e cobra dos funcionários e de si mesmo que o trabalho seja bem feito. O único serviço que ele ainda não fez foi a coroa de flores. Prefere mexer com um corpo a ficar na mesa despachando papel.

Com Paulista foi diferente. Ele estudava Matemática na Puc Campinas, mas desistiu do curso. Começou a faculdade de Engenharia Civil e conseguiu um estágio com um amigo que era presidente da Setec. Paulista começou a cuidar do arquivo de plantas da prefeitura e em dois meses foi transferido para a Setec. Por causa de um projeto no Cemitério dos Amarais, Paulista foi contratado para administrar o local e logo começou a gerenciar os outros dois cemitérios municipais: “Antes eu nem passava na calçada de cemitério. Foi diferente, mas depois vi que tinha muita gente trabalhando. É uma área que você tem que ser um pouco herói porque você ajuda alguém, mas ao mesmo tempo não consegue ajudar”.

Tanto Chacon quanto Paulista procuram se atualizar profissionalmente e participam de eventos importantes da área funerária. A Setec faz parte da Associação dos Cemitérios do Brasil (Acembra), um grupo que era formado somente por cemitérios particulares, sendo a Setec o primeiro setor funerário municipal a ser convidado para integrar a Acembra.

No futuro, Chacon pretende criar a Associação dos Cemitérios Públicos do Estado de São Paulo: “Há muita diferença entre você trabalhar no serviço público ou em uma empresa privada. Os objetivos são diferentes”. No serviço público é preciso fazer tudo com o menor custo para ter resultado, enquanto as instituições privadas buscam vender cada vez mais o seu produto: “De qualquer forma eu não conheço ninguém do ramo funerário ou mesmo de cemitérios que não se deu bem”.

Antes do advento dos cemitérios, os mortos eram enterrados em fazendas ou nos quintais das igrejas. Com o aumento da população, inauguraram o Cemitério da Consolação em São Paulo que atualmente se localiza dentro da cidade.

Para ser dono de um cemitério, primeiro é preciso ter um terreno. Se for em Campinas, o espaço vai passar pela supervisão da Setec, do Conselho Nacional do Meio Ambiente e de outros órgãos nacionais: “É preciso impor a regulamentação. No Brasil inteiro você vê cada absurdo! Tem gente que sepulta um corpo a um metro de profundidade, onde passa água. Tem muito detalhe técnico”. É preciso que todos os requisitos estejam de acordo com o Procedimento de Implantação de Cemitérios, como a existência de velório e estacionamento.

Para estacionar no espaço reservado ao Cemitério da Saudade de Campinas é preciso pagar R$ 3,50. O dinheiro é destinado a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE).

Os servidores públicos que precisam lidar diariamente com a morte não possuem apoio emocional, mas há situações em que eles desempenham a função de assistentes sociais para as famílias que estão aparentemente mais abaladas. Na Setec, o único responsável pela saúde dos funcionários é o médico do trabalho.

A assistente social Sandra Regina Camargo seria a pessoa indicada para dar suporte emocional àqueles que são prejudicados pelo tipo de trabalho que realizam, mas ela cuida dos trabalhos referentes ao departamento de Recursos Humanos: “Infelizmente não tem serviço social ou psicológico para os funcionários”.

O trabalho braçal de recolher os corpos sem vida é responsabilidade dos motoristas. No edital do concurso está descrita a atribuição do cargo e, na prova, existe um teste prático no necrotério para que os candidatos possam ver os cadáveres: tocar, sentir e conhecer as diversas fases e faces da decomposição. Com a leitura do edital, alguns não se convencem da abrangência da função a ser exercida e passam para o exame prático: “Na prática, 10% desiste. Alguns, pela necessidade do dinheiro, tentam enfrentar”.

Para remover cadáveres, os funcionários usam proteção individual para evitar o risco de contaminação: “Alguém pode morrer num acidente, mas ser portador de AIDS ou tuberculose”.

Anderson Lima é motorista da Setec há mais de quatro anos. Gosta do que faz, mas tem que enfrentar situações de perigo: “O trabalho não é difícil, depende do lugar. Difícil é ir à favela de madrugada, já atiraram na gente atrás do Uemura. Saímos do local sem o morto, buscamos reforço e voltamos. Resgatar corpo em lagoa também é complicado”. Os afogamentos são comuns no verão.

Rosalina Clara Pereira trabalha na Setec e é uma das pessoas responsáveis pela preparação de corpos para velórios. Ela era técnica de enfermagem e chegou a tratar de um paciente acidentado por mais de dois anos. A maior dificuldade não é preparar um cadáver para o funeral, mas lidar com o sofrimento das famílias: “Às vezes a família vem aqui, debruça em cima da gente e começa a chorar. Conta histórias de como o falecido ficou doente. Aí você tem que ouvir. Não fico chateada com isso, mas fico triste junto com a família”.

Rosalina fica atenta para não levar tristeza para casa: “Só conto os casos mais pitorescos e interessantes. Uma vez fomos buscar um corpo em uma casa de repouso. A pessoa tinha falecido na cadeira de rodas. A gente chegou e cumprimentou o idoso que estava na cadeira. Foi então que avisaram que o corpo era da pessoa que a gente tinha cumprimentado”.

Quando Rosalina precisa preencher cadastros com seus dados, como idade e profissão, ao dizer que é atendente funerária, as pessoas ficam curiosas e perguntam muito: “Enchem a gente de perguntas e até esquecem do que estavam fazendo. É comum a curiosidade. Não me incomoda, sempre respondo. Nunca senti preconceito e tenho orgulho do que eu faço. Tem gente que esconde. Eu poderia estar dentro do hospital, mas prefiro aqui. No hospital o sofrimento é continuado. Aqui não, você sofre naquela hora e acabou”.

Hoje, como atendente funerária, Rosalina está adaptada: “Primeiro eu tratei de doente e agora cuido de morto”. Ela não permite que a família da pessoa falecida veja a arrumação do corpo: “A família não pode ver porque para eles dói muito. Coloco gesso no nariz e do corpo vaza de tudo. De enfarto vaza sangue. Quando o problema é no estômago vaza líquido escuro ou de outras cores. Problemas de fígado, pâncreas ou hepatite, o líquido é amarelo. Às vezes sai fezes pela boca”.

Em meia hora Rosalina consegue arrumar um corpo “magrinho e em ordem”. Ela faz os tamponamentos, que é o procedimento de obstruir os orifícios do corpo (nas partes genitais o tamponamento é feito no hospital), a maquiagem, coloca as roupas, as flores, penteia o cabelo e faz a barba. Tudo com o corpo dentro da urna.

Enquanto Rosalina explica como faz o serviço e espera a chegada de um corpo gordo “que dá muito mais trabalho”, o motorista João Batista chega para avisar que o falecido obeso precisou passar primeiro pelo IML. “Ainda bem”, diz Rosalina, aliviada.

Há 11 anos na Setec, Batista trabalha 12 horas por dia, fala rápido e fica comovido quando tem que fazer remoção de criança: “Uma criança ficou pendurada pelo pescoço no vão da cama enquanto dormia, devia ter um ano de idade”. A mãe dormiu, o bebê escorregou e morreu enforcado. Batista defende a mãe que nem conhecia: “Cansada, ela dormiu. Não teve culpa. São coisas que fogem do nosso alcance”. As situações que Batista vê durante o dia, ele não conta nem aos familiares: “Não divido com ninguém, divido com a Jurubeba que tomo no bar depois do serviço”.

Capítulo VIII

Quem crê em Deus jamais morrerá

"É mais fácil cultuar os mortos que os vivos. Mais fácil viver de sombra que de sóis. É mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro"
Minha Casa - Zeca Baleiro


Dezenas de barraquinhas de flores se misturam em frente ao Cemitério da Saudade de Campinas. Flores de todas as cores e aromas. Uma dúzia de rosas coloridas é vendida por R$ 5,00, enquanto uma coroa para velório varia de R$ 60,00 a 300,00.

A barraca mais próxima da porta do cemitério pertence à Maria Luiza Inocente Teixeira e seu marido, Ricardo Alves Teixeira, pai de seus três filhos. Há 23 anos trabalham com flores. Vieram do Paraná, passaram por Goiânia e pararam em Campinas há quatro anos. Eles cumprem o expediente das sete da manhã às sete da noite. Em dia de festas, o trabalho começa às cinco da madrugada. As datas mais rentáveis são o dia das mães, dos namorados e de finados.

Todos os dias Maria Luiza testemunha vários enterros: “Tem dia que tem uns 18 velórios”. Quando vê funeral de recém nascido e criança, Maria Lúcia fica chateada: “Isso não podia acontecer. Fico triste quando vejo um pai carregando um caixãozinho de criança, enquanto a mãe ainda nem saiu do hospital”.

Cada ritual tem sua particularidade. Os católicos cantam, os homens ciganos lamentam e os japoneses usam comida e incenso nos rituais: “Depois de alguns anos, os japoneses vêm lavar os ossos dos mortos”.

Maria Luiza observa o movimento enquanto faz os arranjos de flores: “Às vezes, tem família que enterra a pessoa e já sai brigando pela herança”.

As frases gravadas nas faixas que acompanham as coroas de flores são variadas: “Teve um senhor que cuidava de um monte de cachorro de rua e, quando ele morreu, a neta dele pediu para fazer uma faixa com os nomes de todos os cães”.

A florista acredita que o hábito de visitar cemitérios vai acabar porque as pessoas não têm interesse: “Aqui em São Paulo é estranho, os jovens não têm esse costume, diferente de Goiás e do Paraná. Isso tudo vai acabar. Dizem que no cemitério tem muito ladrão e assaltante, mas eu nunca vi isso por aqui”.

No outro canto da fileira de barracas trabalha Tatiana, uma moça de cabelos longos e cacheados. De acordo com a cor das flores, Tatiana procura imaginar como é a pessoa falecida que vai receber o arranjo que ela preparou. A coroa mais bonita é feita de rosas vermelhas. Alguns clientes choram enquanto solicitam o produto: “A gente fica olhando chorar, não dá para fazer nada, no máximo sugerir a frase que vai estampada na faixa. Às vezes a pessoa está chorando tanto que nem consegue falar”. Há alguns meses encomendaram uma frase para acompanhar uma coroa de flores e Tatiana nunca esqueceu a mensagem: “Quem crê em Deus jamais morrerá”.

Dentro do cemitério, entre muitos trabalhadores, existe uma única empreiteira que constrói túmulos. Elizabete Carrera trabalha em um campo predominantemente masculino. Ela gosta do local, mas reclama que o vandalismo destrói seu trabalho: “Góticos deixam preservativos e garrafas espalhadas. Cemitério não é para isso. Não colocam polícia, antes tinha guarda. De três anos para cá parou. Liguei para os jornais, mas ninguém veio. As pessoas têm medo de assalto. Tivemos prejuízo de R$ 1.400,00 por causa de um túmulo duplo quebrado”.

Elizabete segue a tradição de família junto com o marido. Os dois trabalham o dia todo dentro do Cemitério da Saudade de Campinas em concorrência com mais 14 equipes de empreiteiros.

A construção de um túmulo custa de R$ 1.600,00 a R$ 3.200,00. Em geral, ela e o marido, Edson Nazareno Brolacci Pinto, constroem apenas duas sepulturas por mês, pois as pessoas não investem no cemitério como era feito antigamente.

Além da construção de túmulos, eles realizam sepultamentos que custam de R$ 30,00 a 630,00. Os empreiteiros não são servidores públicos e precisam se submeter à supervisão da Setec. Eles são recadastrados anualmente e alguns trabalham na área há mais de 50 anos.

O marido de Elizabete freqüenta o cemitério desde os sete anos de idade e começou a trabalhar como empreiteiro, junto com o pai, quando tinha 13. Ele e a esposa estudaram até o ‘terceiro colegial’. Todos os dias a filha mais nova do casal, Larissa Gabriele Pinto, vai com os pais até o cemitério.

Enquanto Elizabete relata sua experiência, Brolacci se dependura em uma árvore para pegar frutas para a filha de quatro anos. A menina brinca o dia todo perto dos pais e corre entre os túmulos. Jeito sapeca e saudável. Elizabete conta que Larissa quase nunca fica doente: “No máximo, ela fica gripada”.

Tanto os avós quanto os pais de Elizabete trabalhavam no Cemitério da Saudade: “A família toda vive daqui do cemitério, do nosso trabalho”. Tirar férias não é possível: “Dá medo de dar as costas e acontecer alguma coisa”.

Lidar com morte é complicado e a prioridade da família que trabalha há décadas no mesmo local é atender o cliente com cuidado e educação: “Às vezes, a gente é influenciado pelo problema das pessoas. Vem mãe que perdeu o filho em acidente de moto, criança atropelada. Você vê coisas muito tristes. É um serviço desgastante emocionalmente, mas você muda seu raciocínio e dá mais valor à vida e à amizade. Você respeita mais o ser humano como gente. É um serviço digno e sofrido. Algumas pessoas desmerecem o nosso trabalho. Nós abrimos a porta do túmulo, guardamos o corpo lá dentro e cuidamos para que não exale cheiro. Há quem reclame do preço, que é de R$ 30,00 pela mão de obra do sepultamento. O corpo pode vazar e a gente perde a roupa. Se uma pessoa faleceu de insuficiência renal, o corpo está inchado, então a barriga pode romper quando a gente tem que inclinar o caixão para o sepultamento”.

Elizabete tenta não levar os problemas para casa e depois do expediente, se sente vontade de chorar, ela extravasa: “Ouço uma música, choro, falo, gesticulo. No cemitério, sou bastante profissional, mesmo assim fico amiga de muitas famílias que sepultam parentes aqui”. Para aliviar o peso emocional de trabalhar com a tristeza alheia, Brolacci costuma pescar.

Elizabete engravidou da filha mais nova aos 43 anos. Hoje, Gabriele está com quatro e os outros dois filhos mais velhos da empreiteira têm mais de 20 anos de idade. A vida de Elizabete não é fácil, mas a serenidade com que trata as pessoas é o tempero para a felicidade profissional e familiar. A mãe dela sofreu um derrame, não consegue entender a realidade e precisa de todos os cuidados: “Ela fica uma semana comigo e uma semana com a minha irmã. A gente divide o fardo. Eu tenho um bebê que quer atenção e minha mãe para cuidar”.

No cemitério onde trabalha, são sete alqueires para caminhar todos os dias. Mas ela não pensa em mudar de profissão: “A gente pega amor por isso. Tem gente que brinca e diz que se bebeu da água daqui, é difícil sair. Realmente é. Eu não sei explicar, acho que é porque passa de pai para filho. É o que nós sabemos fazer com amor”.

Como afirmado pela maioria dos entrevistados, lidar com a morte é mais tranqüilo do que com pessoas vivas. Elizabete explica por quê: “A partir do momento em que você morreu, eu não tenho mais nada a fazer por você, a não ser te guardar com carinho e respeito. O problema é que, atualmente, as pessoas se respeitam menos e parecem agir como máquinas. O ser humano busca o trabalho, mas não tem respeito. Não deseja um bom dia e passa por cima de tudo”.

Elizabete não tem uma igreja definida para freqüentar, mas reza todos os dias e acredita em um juízo final. “Se nós, que somos humanos ficamos esgotados, imagine Deus! Ele deve estar muito revoltado”. Parar de trabalhar no cemitério não faz parte dos planos dela. “Se eu parar, sou capaz de morrer de frustração. Eu gosto desse sossego, gosto de ficar aqui”. Ela costuma ler as frases gravadas nos túmulos. Certo dia se deparou com palavras escritas para um recém nascido: “Quanta ilusão desfeita nessa lousa”.

Há alguns anos, o pai de Elizabete teve um ataque do coração enquanto trabalhava no cemitério, e caiu em cima de um túmulo: “Chamamos a equipe do Samu. Eles não acreditaram na história, acharam que era brincadeira”. Conseguiram socorro com a Guarda Municipal de Campinas. O pai de Elizabete não sobreviveu. A entrevista acontece ao lado do túmulo dele.

A pequena Larissa aparece para pedir a atenção da mãe. O pai, Brolacci, vem chamar a família para ir embora. É fim de tarde. Eles são fotografados. A menininha esconde o rosto com vergonha.

Assim que Elizabete vai embora para casa com a família, os guardas noturnos chegam para cumprir doze horas de trabalho. Das seis da tarde às seis da manhã, os seguranças desarmados caminham por entre túmulos e capelas do cemitério. Pelo caminho está o cheiro de flor, a brisa e o silêncio.

Sem arma e sem carro, Wagner Destro, aos 42 anos, caminha 86 quadras por noite há três anos: “Para contornar o cemitério a pé levamos uma hora. Não sei porque tiraram o carro que usávamos para trabalhar”. Os túmulos são altos e facilitam que as pessoas se escondam. Em um terreno de mais de 80 mil metros quadrados, com três seguranças, é impossível evitar que os furtos aconteçam.

E eles não estão sozinhos durante as 12 horas de trabalho. Pela madrugada, algumas pessoas visitam o cemitério. Os mais conhecidos são os góticos e os roqueiros que, segundo os guardas, não representam perigo. Eles dançam, cantam e vestem roupas pretas: “Não fazem mal para ninguém”. Durante o dia, além dos funcionários, sepultadores e empreiteiros, outras pessoas transitam pelo cemitério para ler, desenhar, fotografar ou fazer artesanato. “Esse pessoal não atrapalha”.

Quando chove, algumas situações estranhas acontecem, como cães segurando os ossos que saem dos túmulos por causa da água: “A gente pega esse material e coloca em um saquinho”. Destro não tem medo da morte e é evangélico: “Eu nunca tive medo e nem vou ter. Creio em um outro lado melhor do que esse aqui. Quem tem Deus na vida, não tem medo da morte”.

Altair Alves Paixão é o segurança mais novo, com 27 anos. Há três ele trabalha nos cemitérios municipais de Campinas. “Nós somos os fantasmas do cemitério”. O medo só está presente por causa da possibilidade de assalto.

Antônio Aparecido é o mais velho e o único que não é evangélico. Para ele, o perigo da profissão fica por conta de tudo o que anda: “Os roqueiros são excelentes, o problema são os ladrões”. Quando o expediente acaba e o sol começa a aparecer no horizonte, a sensação e a resposta dos três seguranças noturnos é a mesma: “Alegria! A gente sente alegria”.

Capítulo IX

Funexpo 2003

"Nada mais falso do que o medo de morrer, e eu diria que nós fazemos tudo para morrer o mais depressa possível. Os nossos hábitos, os nossos usos, os nossos vícios, as nossas irritações mal disfarçam a vontade, a urgência, a fome de morte."
Nelson Rodrigues

São Paulo, setembro de 2003, sábado às nove da manhã. Um ônibus lotado de pessoas bem vestidas sai de um hotel em direção ao Centro de Exposições Imigrantes.

Empresários e interessados no mercado funerário se reúnem e trocam cartões antes de chegar ao local onde acontece a Funexpo 2003. Logo na entrada da exposição, um guindaste sustenta um caixão gigante.

O movimento de visitantes aumenta a cada minuto. Muitos querem ser fotografados ao lado da maior urna do mundo. De madeira e alças douradas, pesa dois mil quilos, tem sete metros de comprimento, 2,40 metros de largura e um 1,80 metro de altura. São 4,5 mil metros quadrados de exposição funerária.

Antes de chegar perto da urna de sete metros de comprimento, algumas placas intercaladas na porta de entrada homenageavam escultores brasileiros e italianos. Quase ninguém parou para ver. As informações culturais ficaram ali paradas como as estátuas dos retratos.

Em uma das molduras estava a homenagem à campineira Nicolina Vaz de Assis, considerada a maior escultora brasileira. “Nicolina realizou uma obra cheia de formosura, transmitindo aos seus trabalhos a sentimentalidade e as delicadezas de sua alma de mulher”. Na foto, a escultura mostrava uma figura feminina em mármore com um 1,78 metro de altura existente no Cemitério da Consolação, quadra 36.

A Funexpo 2003 não trouxe lucro apenas para a economia funerária, mas também para alguns hotéis de São Paulo. Foram registradas 300 reservas hoteleiras ligadas diretamente à feira. Cada quarto ocupado movimentou, no mínimo, R$ 100,00. Amanda Blazzi é funcionária da agência Family Travel e foi contratada para ser uma das responsáveis pela organização do evento. Amanda fez reservas para pessoas de localidades como Pernambuco, Porto Alegre, São Paulo, Ceará, Rio Grande do Sul, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Argentina, Holanda, Chile, Bolívia, Colômbia, Itália e Venezuela.

Alessandra Torres também foi responsável pela organização hoteleira realizada pela empresa Family Travel, de Botucatu. Sem esconder a surpresa de estar pela primeira vez na Funexpo, conta que no início achou a idéia um pouco estranha e que os comentários ficaram por conta da família: “Ai credo, que macabro”.

Há cinco anos a Funexpo é a maior exposição funerária da América Latina e atrai novidades e empresários do Brasil e do mundo. Em 2003, 60 estandes, entre eles oito estrangeiros, foram montados no Centro de Exposições Imigrantes. O evento recebeu seis mil visitantes em três dias. Os negócios movimentaram R$ 4,5 milhões entre carros, urnas, paramentos, material de tanatopraxia, vestimentas, cartões personalizados, softwares de gerenciamento, transformação de veículos em carros funerários, material de convalescença que são muletas, cadeiras de rodas, colchões d’água e outros aparelhos. No Brasil, o mercado funerário movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano.

A Funexpo foi criada pelo Centro de Tecnologia e Administração Funerária (CTAF). Além de organizar as feiras bienais, o CTAF administra cursos, presta consultoria para funerárias em qualificação profissional e forma tanatopraxistas em todo país.

A tanatopraxia é uma técnica originada no Egito para a conservação de múmias e que está sendo difundida no Brasil há nove anos. Na feira, todos falam da tanatopraxia, que é a troca do sangue por um líquido que tem como base o formol. O líquido é aprisionado no sistema muscular e esse produto inibe o desenvolvimento das bactérias: “A família chega a se sentir orgulhosa pelo corpo estar bonito”.

O curso de tanatopraxia é ministrado em Campinas pelos professores de anatomia da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, Oysenil José Tâmega e Progresso José Garcia. Eles trouxeram a técnica aperfeiçoada de embalsamamento dos Estados Unidos, Colômbia e Espanha. “Em Madri, a técnica da tanatopraxia é avançada”.

Em 2003 foram ministrados oito cursos com 16 alunos por turma. Em cada aula do curso são utilizados dois cadáveres e duas mesas: “Cada kit de tanatopraxia custa em média R$ 5 mil. Em dois dias, foram vendidos cerca de 10 conjuntos completos”.

A urna é o principal produto da feira, com novidades como urna para casal e urna que funciona por controle remoto. Os carros adaptáveis para transportar corpos são alvos de grande interesse, mas pode haver preconceito quando o setor escolhe um carro para usar seus serviços funerários, como aconteceu com a Caravan. Por isso, as montadoras disputam o espaço para adaptar seus veículos. Um deles é da marca Renault. Outra novidade que “vendeu que nem água” foi suporte de cabeça para cadáveres.

O lucro é certo, não há crise. Uma brincadeira, embora desgastada, ainda é citada pelos presentes e carrega sua mais natural verdade, afinal, “os clientes não voltam para reclamar”. O custo benefício da Funexpo é positivo. Para quem precisa negociar, a exposição é perfeita: “Todo mundo se vê aqui em três dias”.

Durante o ano todo, as cinco mil e quinhentas empresas funerárias no Brasil trabalham 24 horas por dia e o movimento econômico é expressivo, pois emprega mais de 100 mil trabalhadores.

O número respeitável de empresas no setor requer cursos de capacitação e a técnica mais requisitada para quem busca aperfeiçoamento é a tanatopraxia, que consiste na preparação adequada do corpo para o velório e que busca melhorar a alteração causada pela morte, como vazamentos, odores desagradáveis e coloração da pele. A técnica possibilita que um ritual seja estendido por mais de 24 horas e, em alguns casos, por mais de 20 dias.

No comando de toda estrutura e inovação está o presidente da Funexpo, da Associação Brasileira de Diretores e Empresas Funerárias (Abredif), vice-presidente da Associação Latino Americana de Parques e Cemitérios (Alpar), diretor executivo do CTAF e estudante de Direito, Lourival Panhozzi.

Ele explica que o aumento significativo do uso da tanatopraxia acontece devido à dispersão das famílias que, às vezes, moram em estados ou países diferentes. “O nascimento é um evento importante como o aniversário e o casamento, mas o derradeiro evento de uma família é a cerimônia fúnebre. É a que mais une, a que mais aproxima e a que mais torna todos iguais”.

Ao ter consciência da importância deste ritual, a empresa que trabalha com a tanatopraxia pode evitar a correria da família, que faz questão de estar presente. Por causa da pressa e do estado psicológico de um momento triste, há pessoas que sofrem acidentes graves nas estradas.

Um momento de dor pode se tornar uma tragédia. Para ilustrar, conto a história de um rapaz que não quis ser identificado. A vida dele conserva uma ferida que se estende por gerações. Quando era bebê, seu pai e todos seus tios foram velar um parente em uma cidade vizinha. As mulheres ficaram em casa cuidando das crianças. No caminho, o grupo sofreu um acidente de carro e ninguém sobreviveu. Depois de mais de 30 anos ele apenas pode constatar que, em sua família, todos os primos são órfãos de pai.

Com a tanatopraxia, o processo biológico de decomposição é adiado e o corpo fica com a aparência de alguém que está dormindo. Sem a técnica, o funeral deve durar menos de 24 horas, o que pode significar pouco tempo para comunicar a família e velar o corpo.

Para investir na qualidade, os profissionais podem fazer cursos de psicologia, atendimento ao cliente, relacionamento e controle de qualidade. Se antes a maior preocupação era com a morte, hoje as empresas cuidam da vida do cliente com diversos benefícios.

O fato é que conseguir a satisfação do cliente em um funeral é algo impossível. “Ninguém fica satisfeito de ter que ir a um funeral, a satisfação do nosso cliente é quando conseguimos amenizar um pouco a dor que é tão grande. Se você conseguir poupar um pouco aquela pessoa, você já conseguiu muito”. Enquanto Lourival explica como amenizar a insatisfação do cliente, as sirenes dos carros em exposição na Funexpo 2003 não param de fazer barulho.

O número de pessoas presentes aumenta, o Centro de Exposições lota, negócios são feitos a cada minuto, cartões são trocados, bebidas servidas. Em um dos estandes há cerveja à vontade e muitos homens com copos na mão. Parece uma grande festa. É quase hora do almoço, a praça de alimentação começa a exalar o cheiro de comida, duas crianças correm e brincam entre as urnas.

Mais negócios são fechados.

Entre tantos homens, encontra-se Taisa Berlingieri, psicóloga e filha do proprietário da Funerária Santa Isabel e do Sistema Prever. Ela ajuda a administrar a empresa de Jaboticabal, que era do avô. Em breve, pretende implantar a Psicologia do Luto, que é o apoio emocional à família associada: “Acho que falta um grupo de orientação para mães que perderam filhos e crianças que perderam pais. Seria interessante oferecer mais um benefício ao associado”.

Após um enterro, o cliente da Funerária Santa Isabel conta com um profissional para cuidar da documentação e encaminhar as roupas e remédios de quem faleceu para asilos e instituições de caridade. Todos os rituais preparados pela Santa Isabel usam a técnica da tanatopraxia. Os planos podem custar de R$ 250,00 a 6 mil. Existem profissionais aptos a acompanhar a família “inclusive com medidor de pressão arterial”.

Em Jaboticabal residem cerca de 70 mil pessoas e o número de associados da Santa Isabel é de 70 mil. A empresa não tem concorrente na cidade e o número elevado de associados tem uma explicação: a funerária presta serviço para toda a região de Jaboticabal.

De pai para filho, dificilmente uma funerária é administrada por funcionários. Na Funexpo 2003 houve um encontro inédito entre os jovens que, em breve, vão assumir o comando de empresas. Taisa acredita que esta foi a melhor maneira encontrada pelos empresários de apresentar o mundo dos negócios funerários para filhos e filhas. “A reunião dos sucessores tem o objetivo de discutir as dificuldades de assumir uma empresa onde praticamente crescemos. É difícil, de repente, sair do papel de filho do dono que corre pela empresa e brinca com os funcionários para o papel de administrador que cuida do negócio, dá ordens e faz mudanças na empresa. É muito bom quando temos a oportunidade, como eu estou tendo, de assumir juntamente com meu pai. Muitos outros jovens tiveram que assumir a empresa no susto, de uma hora para outra, por causa da morte dos pais. Aí sim é difícil, porque tem que aprender tudo sozinho”.

Mário Fernando Berlingieri é pai de Taisa e, aos 54 anos de idade, ele é vice-presidente da Abredif, diretor do CTAF, do orfanato Lar do Caminho, proprietário da Funerária Santa Isabel e do Sistema Prever, formado em Ciências Sociais e Direito. Desde criança convive com urnas e corpos. Com fluência verbal e raciocínio lógico, fala dos planos de elaborar um manual funerário que resgate a história do setor e que compartilhe as situações em que são obrigados a resolver problemas complexos, como no caso de transporte aéreo e leis pouco objetivas.

Dentro da funerária Santa Isabel existe uma sala de cirurgia para a retirada e doação de córneas. Berlingieri interfere junto à família de forma didática para garantir a doação: “Queremos envolver os diretores funerários do Brasil inteiro nesses projetos de doação de órgãos, pois nós somos as pessoas mais próximas nesse momento tão difícil”.

A córnea é retirada na funerária porque é a única parte do corpo que pode ser utilizada depois do óbito. No local dos olhos verdadeiros são colocados olhos de plástico com a finalidade de não trazer para a família qualquer tipo de constrangimento. “Não é porque estamos mexendo com um corpo sem vida que tem que haver desrespeito. Aquele corpo amou, foi amado, transitou pela terra, gerou filhos, produziu. Temos respeitar, mesmo que este corpo esteja retornando para o laboratório da natureza”.

Depois da conversa esclarecedora sobre administração funerária, entrevisto Jonacir Amorin. Ele é um dos maiores fabricantes de urnas do estado de São Paulo. A Faurtil, localizada em Tietê, está há 49 anos no ramo e emprega 50 pessoas. Amorim sabe que os donos das funerárias são exigentes, então buscou aperfeiçoamento profissional pelo mundo.

Sem saber falar inglês, Amorin e seu maior concorrente, Marcos Bignotto, viajaram juntos para os Estados Unidos em busca de novas informações: “Nos Estados Unidos andamos seis mil quilômetros de carro para fazer pesquisa de mercado. Levamos um intérprete. Participei de feiras em Portugal e vi que lá eles respeitam mais a morte. O brasileiro não aceita, é muito emocional”.

Em Portugal as urnas não têm alça e, a caminho do enterro, são carregadas nos ombros. Amorim conta que um metro cúbico de madeira permite a fabricação de quatorze urnas. Ele é um dos poucos fabricantes brasileiros que exporta seus produtos. Há seis meses, a Faurtil vende caixões para a Itália, França e Alemanha. Vender para os Estados Unidos é difícil porque eles fazem exigências que comprometem a estrutura de uma fábrica. Os norte-americanos são enterrados em urnas quadradas, enquanto os brasileiros utilizam as arredondadas. Com quatro filhos, apenas os meninos começaram a assumir a empresa do pai: “Eu acho que é um ramo para homens”.

Mesmo em um mundo dominado pelos homens, Edna Porto Viola é uma das poucas empresárias na feira; ela começou a trabalhar no ramo há oito anos. A empresa Modial era dela e do marido, mas ele resolveu entregá-la para a esposa administrar e abriu outro negócio também no setor funerário.

A Modial vende dois mil produtos por mês entre vestes fúnebres, caixas para ossos, acessórios para veículos, véus e sedas.

Bem vestida, Edna atende os clientes em seu estande e quase não pode parar para a entrevista. É interrompida o tempo todo por pessoas que querem negociar e comprar seus produtos. Alguns metros depois da Modial está Valdemar Bresciani. Ele começou a trabalhar como fabricante de urnas por acaso. Mesmo contrariando a realidade das empresas familiares, Bresciani conseguiu projetar sua empresa no cenário funerário com rapidez.

Quando era empreiteiro, ele fez um conjunto habitacional a pedido da prefeitura de uma cidade em Santa Catarina, mas ficou sem receber o pagamento durante cinco meses. Para negociar a dívida, o ex-prefeito, Dorvalino Dacorregio, doou um terreno para Bresciani e o ajudou a construir uma fábrica: “O prefeito trouxe até a mão de obra porque eu não entendia nada de urna”. Hoje, Bresciani administra uma empresa, tem 85 funcionários e vende duas mil urnas por mês. Há três anos no mercado, os caixões fabricados pela fábrica Irmãos Bresciani são fornecidos para estados como Mato Grosso, Alagoas e Minas Gerais. A Santa Casa do Rio de Janeiro é cliente da fábrica de Bresciani, e as urnas são usadas nas gravações de funerais de novelas da Rede Globo. O corpo de Roberto Marinho foi enterrado em um caixão feito pela fábrica Bresciani: “A urna do Roberto Marinho não é o modelo mais caro. Custou R$ 950,00. Não sei o preço que a funerária cobrou pelo serviço todo. Geralmente o preço é cinco a 10 vezes mais caro que a urna”.

Em um funeral, o custo não fica por conta apenas da urna, mas do serviço completo: arrumação do corpo, flores, paramentos e preparação burocrática dos papéis referentes ao óbito.

Os donos de funerárias precisam entender de cadáveres, mas os fabricantes de urnas não. Marcos Bignotto é proprietário da maior fabricante de caixões da América Latina. A empresa tem 36 mil metros quadrados de construção. No início, Bignotto não gostava da idéia de trabalhar com fabricação e venda de urnas, mas assumiu o negócio por questão de honra. “Se os outros podiam fazer bem feito, eu seria mais um”.

Obstinado, ele fez da fábrica localizada em Cordeirópolis, no interior do estado de São Paulo, uma empresa de sucesso que emprega 350 pessoas. A cada oito horas de trabalho, são feitas mil urnas. No total, fabrica 20 mil caixões por mês: “Vendo todos”. Há 35 anos Bignotto herdou a tarefa do pai.

Atualmente, ele prepara a filha mais velha, de 19 anos, para assumir seu lugar. “Tenho três filhas e um filho. A mais velha está na faculdade de economia e mostra interesse pela administração da fábrica”.

A entrevista acontece na praça de alimentação do Centro de Exposições Imigrantes. São cinco horas da tarde do dia 06 de setembro de 2003. Com lágrimas nos olhos, Bignotto pede café e água e diz: “As histórias chocam, mas as pessoas sobrevivem ao choque”.

A dor está na lembrança da morte do pai, que faleceu há cerca de três anos enquanto trabalhava dentro da fábrica. Para explicar os sentimentos de saudade e a necessidade de aceitar a morte, Bignotto cita a dor de uma mãe que perdeu seu filho na explosão do Veículo Lançador de Satélites (VLS) que matou 21 pessoas no Maranhão em agosto de 2003. Bignotto é amigo da família de Mário Freitas Levy, que estava entre as vítimas.

Aos 73 anos de idade, a mãe de Mário, Margarida Freitas Levy, precisou passar pelo desgaste emocional de perder um filho com 43 anos. Para amenizar a própria dor, ela disse para Bignotto: “Se outras mães podem suportar, eu também posso”.

Oração do tanatólogo

PAI!
Neste momento, rogo mais uma vez a vossa proteção.
Encontro-me diante deste corpo humano inerte, destituído de vida, cuja caminhada terrena acaba de findar.
PAI!
No exercício de minha atividade como tanatólogo, peço a vossa permissão para adentrar o íntimo deste sacrário físico, pois pretendo fazê-lo com o mais profundo e sincero respeito, tendo sempre presente em minha consciência que este ser amou e foi amado, respeitou e foi respeitado, lutou para viver, semeou, colheu, vivenciou vitórias e derrotas, edificou esperanças, cumprindo os desígnios que lhe foram determinados.
PAI!
Elevo neste instante o recôndito de minha fé, tributando a esta criatura vibrações de paz e harmonia, rogando aos socorristas do mundo invisível para que retirem, caso ainda não tenha retirado, a chama divina que habitou esta matéria, guindando-a às hostes dos seus merecimentos, desligando os liames físicos, para que nesta mesa permaneça única e tão somente a composição orgânica na qual praticarei o meu desiderato.
PAI!
Obrigado por tudo quanto tenho recebido, pois sei e sinto que ao iniciar o meu trabalho, mais uma vez as minhas mãos estarão seguras e guiadas por vosso infinito amor, que sempre protegeu e protegerá a minha saúde e minha integridade física.

ASSIM SEJA.
(Mario Fernando Berlingieri)

Capítulo X

A morte não existe

"O melhor negócio é ainda o seguinte: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso".
A Hora da Estrela - Clarice Lispector


Antônia Vieira viveu mais de nove décadas e morreu nos anos 90. Casou-se três vezes. O primeiro casamento aconteceu quando ela estava com 12 anos de idade. Teve sete filhos com o primeiro marido.

No terceiro casamento, aos 78 anos, casou-se, na igreja e no civil, com um senhor solteiro oito anos mais novo e amigo de infância. A história da família de Antônia é repleta de velórios. Enterrou sete filhos, dois maridos e muitos outros parentes.

Joaquina de Paula foi a última filha de Antônia a morrer do coração, aos 46 anos. Foi no dia 11 de maio de 1976. Joaquina deu quatro netos para Antônia. Duas meninas e dois meninos: Machado e Abner*. As meninas morreram, Sônia aos três e Hilda aos 14.

Era década de 60 em um hospital de Votuporanga, interior de São Paulo, quando Hilda foi submetida a uma cirurgia na garganta. A mãe, Joaquina, acompanhou a internação. Depois de três dias, Hilda recebeu alta. Arrumou-se para deixar o local após receber a visita do pai, Sebastião.

O irmão mais velho, Machado, estava a caminho do trabalho quando resolveu passar no hospital, mas quando ele chegou, Hilda tinha acabado de sofrer um enfarte do coração. “Fazia três minutos que ela tinha morrido no portão do hospital logo após receber alta. Os enfermeiros socorreram, mas foi fulminante, não deu tempo de fazer nada”.

O enfarte de Hilda foi causado pela doença de chagas. Filho de Joaquina e neto de Antônia, Machado assistiu grande parte da família falecer por problemas no coração, que é um dos sintomas da doença de chagas.

O mal, causado pelo inseto conhecido como barbeiro, foi estudado pelo cientista do Instituto Oswaldo Cruz, Carlos Chagas: o único a pesquisar todo o ciclo da doença. Os estudos não avançaram até meados do século passado por causa de disputas políticas dentro dos institutos.

Tanto o Instituto Oswaldo Cruz como o Butantã estavam ganhando força internacional com suas descobertas. Foi na década de 70 que o então presidente Ernesto Geisel percebeu a importância estratégica da ciência para o país e priorizou o desenvolvimento tecnológico e a produção de imunobiológicos. Enquanto os responsáveis pela evolução da ciência brigavam por poder, Joaquina cuidava de seus filhos.

Apesar das poucas palavras, Machado deixa escapar que, desde criança conseguia prever as mortes iminentes. “Geralmente sentia cheiro de vela sem ter vela queimando por perto. Então era certeza que alguém ia morrer. Eu estava tomando banho enquanto senti cheiro de vela e minha mãe estava no hospital morrendo”.

Faltavam dois meses para Machado se casar quando sua mãe, Joaquina, faleceu atingida pela doença que atacou o coração.

O filho mais velho de Joaquina trabalhou desde os sete anos de idade: foi entregador de jornal, tipógrafo, policial militar, professor de ciências físicas e biológicas, bancário e hoje é corretor de imóveis. Quando fazia parte da Polícia Militar, aos 21 anos, Machado precisou conviver com a morte de pessoas estranhas, cuidar de corpos, resgatar cadáveres em matagais e afogados em rios e lagoas. Ele trabalhava na região de General Salgado, cidade pequena no interior de São Paulo.

Prudêncio de Moraes, conhecido como Cachorro Sentado, é um distrito pertencente a General Salgado, cidade próxima a São José do Rio Preto. Machado explica que o apelido da pequena cidade surgiu quando o padre da igreja local reclamava da falta de fiéis. “Dizem que o padre reclamava que o único ouvinte da missa era um cachorro sentado, daí o apelido pegou”.

Existe outra versão: a de que um estranho chegou na cidade e não encontrou nenhuma pessoa, viu apenas um cachorro sentado no meio da única rua principal. “O estranho comentou o fato em um boteco da vila e pronto! A cidade passou a ser chamada de Cachorro Sentado”, conta Machado.

Com menos de 10 mil habitantes, Cachorro Sentado guarda alguns assassinatos na história: na década de 70, um jovem de 23 anos fugiu com a namorada, fato comum em uma época cheia de proibições e controles morais. Na fuga, o casal se desentendeu e o rapaz esfaqueou a garota 33 vezes.

Machado e mais alguns policiais encontraram o corpo da moça no meio de um cafezal e o levaram para a delegacia. “Nunca tinha visto um cadáver assim, foi normal, não tive reação nenhuma. Na época, a gente não tinha muita preocupação porque não tinha o medo da AIDS, a gente pegou o corpo de qualquer jeito e colocou na viatura”.

Na delegacia, puseram o corpo nu da moça assassinada em cima de uma mesa e lavaram-no com água. O perito fotografou. Ela foi enviada para o necrotério. Foi feito o velório e o funeral. Era 1972.

Como era comum em cidades pequenas, os policiais faziam de tudo um pouco, inclusive o serviço de bombeiro. Uma mulher que morava na frente da delegacia tentou se matar, mas Machado e o Sargento Valdir correram para socorrê-la.

Misturaram água morna, sal e vinagre para que ela pudesse “colocar para fora” todo veneno que ingeriu. “Fizemos essa mulher tomar vários litros de água e foi o que a salvou, pois ela vomitou tudo. Levamos para o hospital e ela está viva até hoje”.

Na escola de soldado, como explica Machado, os rapazes recebiam treinamento sobre combate à incêndios, primeiros socorros, picadas de cobras venenosas e afogamento. “Preparo psicológico não teve nenhum, a gente aprendia no dia-a-dia com os mais velhos. Os mais antigos diziam ‘não esquenta não ô polícia, é assim mesmo, e toca a vida’, a gente aprendia com eles e ia tocando”.

Da mesma forma que um bom jornalista não rejeita uma notícia quente quando, teoricamente, está de folga, um bom policial também presta auxílio quando alguém necessita de socorro. Machado saía da escola onde estudava quando gritaram dentro de uma casa pedindo ajuda. Um senhor tinha acabado de falecer e os parentes não sabiam como agir. Edson ajudou a família a lavar o morto, vestir o paletó e colocá-lo no caixão.

Na vida pessoal de Machado, a presença da morte foi constante. Perdeu todos os tios, duas irmãs, a mãe, amigos e vizinhos. Quando morava em Votuporanga com os pais, em apenas um ano nove pessoas que moravam na mesma rua que ele faleceram, inclusive sua irmã e um amigo da família, o barbeiro Afonso Pena.

Machado presenciou mais de 60 velórios na vida pessoal e, como Policial Militar, conviveu com cadáveres e assassinos por cerca de dois anos. “Existe uma música que chama ‘Rock Bravo’ do Leo Canhoto e Robertinho que fala do assassino J.S de Cachorro Sentado”. J.S foi preso e ficou em General Salgado para ser julgado e condenado.

Machado conta que J.S. foi levado por dois policiais para a cadeia de Presidente Venceslau. “Eu fiz a escolta do assassino até Presidente Venceslau. Enquanto o outro polícia foi ver o horário certo do ônibus, aglomerou um monte de gente em volta do homem condenado à prisão. De repente, J.S. saiu agredindo as pessoas. Foi quando eu rolei no chão para poder segurá-lo. Meu outro colega apareceu e a gente conseguiu dominar o prisioneiro. Ele era um senhor negro com um e noventa de altura, tinha uns 100 quilos”.

Depois de 15 anos que Machado deixou de ser Policial Militar, soube que J.S cumpriu a sentença, saiu da prisão e logo matou um taxista em Auriflama. “Era um homicida nato”.

Como a maior parte dos entrevistados deste livro-reportagem, Machado conviveu de perto com a morte. Individualmente, cada profissional viu, ouviu, sentiu o cheiro, cuidou, vestiu, consolou, chorou, guardou imagens na memória e sentimentos na alma.

Alguns acreditam que a alma existe, enquanto outros parecem pensar da mesma forma como é cantado o verso na voz de Rita Lee: “não acredito em nada e até duvido da fé”.

Independente da maneira como cada ser humano lida com o fim da vida, as pessoas necessitam de símbolos para tentar entender a morte. A constatação parece ser um dos motivos para o mercado funerário propor avanços tecnológicos.

Adriana Fiori é psicanalista e também trabalha com a morte, mas “em um sentido simbólico”. Em 2002 ela colaborou para um estudo organizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). O trabalho teve o objetivo de mapear os impactos sociais e econômicos dos acidentes de trânsito nas aglomerações urbanas.

As mortes causadas em acidentes automobilísticos causam dor, sofrimento e muito prejuízo. Para chegar ao resultado da extensa investigação, foram examinados vários fatores que causam danos materiais: custo de perda de produção, de danos aos veículos, médico-hospitalar, de processos judiciais, custo previdenciário, resgate das vítimas, remoção dos veículos, danos ao mobiliário urbano e à propriedade de terceiros, danos à sinalização de trânsito, atendimento policial, atendimento dos agentes de trânsito, impacto familiar e custo com outros meios de transporte, que seria a soma das despesas do acidentado com passagens de ônibus, táxi e aluguel de veículo.

No total foram visitados 4.123 domicílios nas aglomerações urbanas de São Paulo, Belém, Recife e Porto Alegre. No País, o prejuízo com acidentes de trânsito chega a ser mais de R$ 5 bilhões anuais (a preços de abril de 2003). “Estes valores resultam somente dos acidentes ocorridos em área urbana. Os custos dos acidentes ocorridos em rodovias fora do perímetro urbano não estão incluídos, ainda que estes acidentes sejam os mais graves, são menos numerosos”.

O custo médio de um acidente sem vítimas é de R$ 3.262,00. Com vítimas feridas a média é de R$ 17.460,00. Se no acidente alguém morrer o valor médio do prejuízo sobe para R$ 144.143,00.

Apesar de ser uma pesquisa, o assunto morte requer, em qualquer circunstância, tato e delicadeza. Foi por isso que o IPEA contratou uma psicanalista.

Primeiramente Adriana recebeu uma lista de 400 pessoas que perderam a vida em acidentes de trânsito em 2001. Depois, ligou para a família de cada uma delas, mas apenas 50 aceitaram conceder uma entrevista que incluía um extenso questionário. “Eu fazia desde o primeiro contato por telefone até agendar e ir à casa da pessoa. Não podia ser feito por telefone, tinha que ser pessoalmente. Era um questionário longo e por telefone é um assunto delicado”.

Adriana precisou de três meses para concluir sua parte na pesquisa e, além de abordar óbitos, entrevistou 10 pessoas que tiveram graves seqüelas em acidentes.

Adriana afirma que não ficou abalada com as entrevistas: “Difícil me afetar porque eu sou treinada para não ser afetada”. Enquanto fala de morte, Adriana interrompe a entrevista por duas vezes para mostrar as flores que estão desabrochando no quintal de sua casa. “Daqui a pouco as outras vão se abrir, fique olhando”.

Das pessoas presentes no momento da conversa, ninguém lembrou o nome da flor que se abre toda no momento do crepúsculo. Adriana volta para o tema central da entrevista. “Nada me afeta. Mas eu fiquei impressionada com uma moça que perdeu o marido, motoqueiro, na rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo. Fazia seis meses. Ela tinha dois filhos. A delegacia contou uma história mal contada. O caminhoneiro que atropelou o rapaz tomou todas as providências e dizia que ele não era o culpado, o Boletim de Ocorrência era obscuro, não tinha uma descrição da morte dele”.

Quando a esposa do motoqueiro chegou no pronto socorro, recebeu um saco de roupa suja de sangue. “Sem preparo nenhum, sem ninguém para receber. Ela ainda chorava muito, tinha 34 anos e era muito bem casada. Ainda estava emocionada. Ela aceitou ser entrevistada pela revolta que estava sentindo e me dizia ‘eu faço tudo o que for preciso para quem for tomar providência a respeito do trânsito de São Paulo”.

Cerca de 70% das mortes pesquisadas por Adriana envolvia motoqueiros: “Eles morrem aos montes”.

Pessoalmente, Adriana diz que nunca teve medo da morte: “Eu fui determinada culturalmente, pela religiosidade da minha mãe, a achar que a morte é uma passagem. Houve uma época em que eu tive uma sadia angústia e hoje eu resolvi achar que a morte deve ser uma coisa muito legal”.

Adriana viu algumas pessoas muito próximas morrerem, inclusive a própria mãe: “Ela morreu tão bem que eu aprendi com ela. A última herança que ela me deixou foi me ensinar a morrer”.

Silêncio na mesa, as flores continuam a desabrochar. Coca-Cola, Guaraná Antártica e copos. A cada pausa na entrevista, Adriana engole um pouco do líquido doce e gasoso. Além de Adriana, estão presentes um de seus três filhos e sua nora.

Histórias de dor não faltam. Apesar de negar que as entrevistas afetaram sua sensibilidade, é difícil ficar indiferente ao sofrimento das pessoas. Outro caso que impressionou Adriana foi o de um acidente com um carro e cinco adolescentes. “O rapaz que dirigia estava brincando no trânsito e eles bateram em um paredão de concreto embaixo da avenida Angélica, cruzamento com a Paulista, no começo da Rebouças”.

O rapaz estava na direção e duas meninas estavam na frente, uma sentada no colo da outra, e mais três pessoas no banco de trás. Das duas meninas que estavam no banco da frente, uma morreu e a outra ficou paralisada do seio para baixo. “Eu não consegui falar com a mãe da menina que morreu, mas a mãe da menina que ficou paralisada me recebeu”.

A moça acidentada tinha 17 anos e ficou paralisada para o resto da vida. Usa fralda e sonda para urinar. “A mãe ganha R$ 400,00 como copeira de um escritório de advocacia. Além de cuidar dessa filha, ela faz salgadinho para vender”. Com o responsável pelo acidente não aconteceu nada. As famílias dos adolescentes eram do mesmo bairro, mas tornaram-se inimigas e não se falam mais. “Eu tentei entrevistá-las, mas não consegui”.

Com a discussão de tantos assuntos complexos, como o sentimento de perda e tristeza, perguntei à psicanalista Adriana se a morte pode traumatizar a ponto de não haver recuperação psicológica. Ela é direta e sucinta. “O prejuízo psicológico nas situações de morte não é o que você está imaginando, porque a morte é uma coisa que a gente não pode esconder. Ela é real e dói muito, mas não traumatiza. O que faz uma pessoa ficar psiquicamente desestruturada, traumatizada ou enlouquecer é justamente aquilo que ela não consegue dizer ou simbolizar. Morte, por incrível que pareça, não é uma coisa traumática no sentido técnico da palavra trauma. É real e está na consciência. Quem perdeu um parente da maneira mais trágica possível sabe que perdeu um parente da maneira mais trágica possível”.

As reações diferem de família para família. O material denso da pesquisa é analisado pela especialista, que explica a morte em ângulos psíquicos. Adriana tenta lembrar de casos diferentes para ilustrar como um óbito pode causar seqüelas ou apenas fazer parte da natureza.

Em uma das tentativas de entrevista para a pesquisa solicitada pelo IPEA, a psicanalista se deparou com uma mãe que teve seu bebê de um ano atropelado. “Eu liguei para ela no meio de agosto de 2002 quando eu comecei a fazer a pesquisa. O bebê tinha morrido no ano anterior”.

Com delicadeza, Adriana conversou por telefone com a mãe do bebê atropelado. Ao perguntar para a moça como ela estava, Adriana recebeu uma resposta com voz alegre, e tenta reproduzir o momento. “Ai, eu tô tudo bem, agora eu já tenho outro nenê”.

Adriana resolveu não entrevistar a mãe do bebê porque o perfil da moça não condizia com a direção da pesquisa, que era a de avaliar o prejuízo econômico das mortes causadas pelo trânsito. “Ela era extremamente pobre, morava em uma favela e devia estar habituada a ver crianças morrerem. No extrato de baixa renda os bebês morrem com muita freqüência e ela encarava isso tranqüilamente. Eu vi que ela encarava a morte do bebê do mesmo jeito que ela encarava a vida dela: descartável. Não por maldade, muito pelo contrário. Era uma moça de 20 e poucos anos, tinha a voz doce pelo telefone, mas o contato que ela tinha com a morte era esse”.

Na realidade, as pessoas atribuem sentidos à morte. “O que a gente sabe dela são os sentidos que a cultura nos fornece. Cada pessoa atribui o seu sentido particular à morte de alguém próximo. Um fica revoltado, outro fica triste, outros acreditam na vida depois da morte. Isso tudo são recursos de viver. Com relação à morte, nós não temos nada para dizer, nós temos o que dizer a respeito da vida”, completa Adriana.

Toda cultura sente a morte de uma maneira diferente. Os ritos são as únicas maneiras que o homem tem de conceber o fim da vida, porque o real da morte é inacessível, assim como são inacessíveis o nascimento e o sexo. “Você não tem a experiência do seu nascimento e da sua morte. A morte real de alguém conhecido você também não vê, você só tem que integrar um cadáver em sofrimento, uma perda, adaptação, luto, depressão. Freud chamava isso de melancolia. Ninguém pode saber o que é morrer enquanto estiver vivo. Por isso, a cultura ritualiza o óbito. Rodeamos a morte de palavras, linguagem e ritos. Usamos todas as maneiras de dizer o indizível: ah foi melhor, descansou. Cada cultura dá à morte o valor que ela dá à vida”.

Para entender a morte natural e a acidental, Adriana explica que, no caso do doente, quem descansa é a família. Quando morre uma pessoa que passou um longo período de enfermidade, a família tem uma grande sensação de alívio. Se não houver alguém para ajudar durante o luto, o sentimento de alívio pode trazer culpa. A pessoa que ficou se sente má.

A mãe de Adriana morreu de forma clássica, na cama do hospital, acompanhada pela família e pelos amigos. Durante seu último dia, ela chamou as pessoas para conversar e “fez todas as recomendações”. Como era espírita, seu grupo religioso esteve presente para acompanhá-la nos momentos finais. “Ela morreu com a dignidade com que ela viveu. Meu pai morreu no desespero e na angústia em que ele viveu”. Para Adriana, a importância da pesquisa não foi apenas a estatística, mas a confirmação de que “a gente vê a morte do mesmo jeito que a gente vê a vida, porque não tem morte para ver. Nós só conhecemos a vida, entende?”.



*Abner foi assassinado em 12 de julho de 2006.
Um tiro no coração.

domingo, 11 de maio de 2008

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